Projetos de Lei: Câmeras em Abatedouros

Muita gente pensa apenas em cães e gatos quando o assunto é maus-tratos. Sim, mas não só. Ainda que isso seja compreensível, visto que eles estão em nossos lares e mais próximos de nossa realidade, não é verdade que este sofrimento só atinja animais de estimação. Fãs de carne, por exemplo, não sabem o que acontece antes de seus pratos chegarem à mesa. Sequer imaginam o quão cruel pode ser a morte de um animal que, amanhã, será o bife, a linguiça, o frango assado. E esta é apenas uma das questões que me levaram a propor uma lei que obrigue todos os abatedouros do Estado de São Paulo a terem câmeras de vídeo. Vamos falar de estresse pré-abate? Segundo o professor Pedro Eduardo de Felício, da Faculdade de Engenharia de Alimentos, em seu artigo “Fatores ante e postem mortem que influenciam na qualidade da carne bovina”: “Quando os bovinos são acometidos de estresse pré-abate, a reserva de glicogênio dos músculos desses animais pode ser parcial ou totalmente exaurida. Como consequência, o estabelecimento do rigor mortis se dá na primeira hora, mesmo antes da carcaça ser levada à câmara fria, porque a reserva energética não é suficiente para sustentar o metabolismo anaeróbio e produzir ácido lático capaz de fazer baixar o pH a 5,5 na 24a. hora post mortem. A carne resultante desse processo terá pH maior que 5,8, que proporciona às proteínas musculares uma alta capacidade de retenção de água, mas será escura, com vida de prateleira mais curta, que se dá porque na ausência de ácido lático e glicose livre as bactérias utilizam os aminoácidos da carne com produção de odores desagradáveis. Essa carne com pH alto também pode apresentar uma descoloração esverdeada, causada por bactérias que produzem H2S [Sulfeto de Hidrogênio, um gás muito tóxico que não tem cor, mas cheira como ovos podres]”. O que isso significa? Que muito além dos maus-tratos, a forma como um animal é abatido influencia até mesmo no quão saudável ou quão deteriorada será a carne que consumimos. Além disso, a falta de higiene em muitos desses locais de abate é de deixar espantado até o mais carnívoro dos humanos. Funcionários sem camisa, luvas e proteção trabalham livremente em dois terços desses lugares, pondo em risco a saúde de quem come o que é ali produzido. Cisticercose, tuberculose e toxoplasmose são apenas três das inúmeras infecções que podem surgir da falta de regulamentação e fiscalização desses matadouros. Mas se nos fixarmos na crueldade, também é fácil entender por que colocar câmeras nesses matadouros é essencial, mesmo que comer carne ainda seja uma opção. Em reportagem do “Fantástico”, de março de 2003, trabalhadores afirmaram matar os animais com marretadas e, até mesmo, com tiros de espingarda, causando enorme sofrimento. Em nenhum dos locais visitados havia um veterinário que cuidasse dos animais e se responsabilizasse pelo abate e pela saúde do que era morto ali. Com tudo isso, as câmeras são, sem dúvidas, a melhor opção para tornar a fiscalização dos abatedouros mais simples e rápida. E para cobrar das empresas fornecedoras de carne um mínimo de respeito aos animais que ainda são mortos para satisfazer o consumo humano. Assine nossa petição “Câmera nos abatedouros JÁ!” Feliciano Filho



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